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724- Quando o corpo de Rue chegou, e um minúsculo caixão de madeira, seus pais ficaram desesperados. A mãe enterrou a cabeça no ombro do marido e se pôs a chorar enquanto se perguntava como aquilo havia acontecido. Eles não podiam deixar aquilo em casa, não com seus outros filhos ali, que provavelmente perderiam o controle ao verem novamente a irmã machucada. Ao mesmo tempo parecia errado para eles simplesmente enterrá-la, como se nada tivesse acontecido. Acabaram escolhendo deixar o caixão aberto no limite da cidade, por onde cada trabalhador tinha que passar para ir trabalhar nos campos e nos pomares. Seu rosto estava tão solene que poderia estar dormindo. Os Pacificadores ficaram em dúvida do que fariam. Quando por volta do meio-dia um velho responsável pela contagem de frutas colhidas se rompeu em lágrimas, eles resolveram que aquilo deveria acabar. Empurrando os pais de Rue, puxaram a alça do caixão, erguendo-o. Foi nessa hora que os tordos, que ficaram em silêncio a manhã inteira, se aproximaram e atacaram, com os bicos afiados, cada um que quisesse fazer algum mau à menininha que sempre cantara para eles.
725- Uma vez, quando o filho de Finnick e Annie tinha seis anos, ela o levou à praia. Ele se divertiu tanto nadando e pescando que ela não pôde deixar de sorrir, mesmo que fosse um sorriso triste. “Que foi, mãe?”, ele perguntou, sem fôlego, enquanto estava se recuperando de uma corrida pela praia. “Nada. É que você se parece muito com o seu pai.” O menino deu um sorriso confiante. “Eu sei. Dizem que ele também era lindo, charmoso, agradável…” “Modesto”, completou Annie, rindo. “Mas você me lembra dele principalmente pelo que você tem por dentro. Seu pai é… Era uma das pessoas mais amáveis que eu já conheci.” O menino parou para pensar por um minuto. “Ele também era muito inteligente, certo, mãe?” “Bom, sim. Mas por que você diz isso?” Foi a vez do menininho sorrir. “Porque ele quis ficar com você e não com as outras!” E então abraçou a mãe, que se segurava para não cair na gargalhada e chorar ao mesmo tempo.
727- Enquanto aqueles bestantes lentamente lhe destruíram, Cato tinha bastante tempo para pensar entre os gritos. Pensou em sua família. Que, por mais que aquele fosse o jeito mais honroso de morrer, também era horrível. Naqueles que não quis proteger. Naqueles que não conseguiu proteger. Lembrou-se de quando ganhou sua primeira espada. De quando recebeu uma sala só dele para treinar na Academia no 2, do olhar de inveja dos outros garotos, que agora certamente estariam rindo… Ele se concentrou. Não conseguia lutar daquela maneira. Mas enquanto olhava para aquelas sinistras criaturas, uma mais forte do que a outra, sentiu algo horrível ao ver uma delas. Ver os olhos dela, o único cordão de couro com uma miniatura de faca preso em seu pescoço, foi o bastante para que Cato se obrigasse a fechar os olhos antes que visse o ataque. Pediu que ela parasse. Eram aqueles olhos, provavelmente aquele cérebro, o cérebro daquela garota que o entendia melhor que ninguém, aquela garota que gostava dele como ele era… “Clove! Por favor!”, ele sussurrou, enquanto caía, fechando os olhos, tentando imaginar que ela não o estava atacando e, depois, que não era ela, sem sequer desconfiar que o monstro também queria com todas as suas forças parar de fazer aquilo com a única pessoa que tentara salvá-la.
728- Quando Marvel morreu, Cato e Clove não disseram uma palavra. Já desconfiaram ao escutarem dois canhões que um deles fora para ele, mas não tiveram certeza- até verem o rosto do garoto no céu. Eles trocaram um sorrisinho enquanto imaginavam o modo como ele tinha morrido. “Talvez, o Conquistador do jeito que estava tenha conseguido matá-lo”, sugeriu Cato, o que fez Clove ter um ataque de risos, enquanto olhava para o céu, feliz por um instante. Foi então que viu outro rosto. A garotinha do 11. Ela não pôde evitar se sentir mal. Tinha uma irmã menor no 2, que também subia em árvores. Cato notou a reação da garota. “Ei”, falou, abraçando-a enquanto entendia. “Não é ela.” Clove se forçou a sorrir. Tinha que ser a Carreirista forte e determinada. “Eu sei. É que eu quebro a cara de cada idiota que mexe com a minha irmã. Você sabe disso. Eu a protejo, Cato, e qualquer pessoa com alguma semelhança com ela desperta um mínimo de afeição em mim. Você sabe disso.” Ele sorriu. “Entendo essa necessidade de proteção. Mas você está em vantagem, Clove. Pelo menos quem você quer proteger não está na arena.”
729- O pai de Marvel era um homem de negócios. Ele era muito rico, um dos poucos homens que achara um futuro naquele lugar sem precisar ir para os Jogos. Viera de uma família antiga, que comercializava diamantes, e expandira aquilo a ponto de ser um dos homens mais ricos. Seu filho não era muito popular, mas treinava incansavelmente para os Jogos. Certo dia, quando este chegou em casa após horas levantando pesos, encontrou o homem examinando uma pedra que se parecia um diamante- exceto pela tonalidade rosa. “O que é isso?”, Marvel perguntou, rindo. Ele sorriu. “Uma nova pedra. Eu consegui juntar dois componentes químicos de forma que formasse um metal completamente novo. Valiosíssimo. Lindo. Uma pena que só dure algumas horas, antes que se desfaça.” Marvel, que há muito tempo desistira de entender química, apenas sorriu com a alegria do pai. “Que legal. Ei, eu também tenho novidades! Fui aceito. Eu vou ser o voluntário deste ano, pai. Já está tudo combinado.” O homem envolveu o filho em um abraço, tentando não demonstrar sua preocupação. “Filho, isto é… Estou muito orgulhoso de você! Aqui! Pode batizar a pedra! Você merece!” Marvel pegou o metal em suas mãos, de repente fascinado também. “Glimmer”, disse, após vários segundos. “Eu o batizo de Glimmer.” O pai franziu a testa. “Tem certeza? Por quê?” Marvel suspirou. “É lindo”. Porém, seu rosto adquiriu uma expressão fria, como se tivesse pensado em algo. “Mas logo irá se desfazer.”
730- Maysilee estava se sentindo bastante solitária. Havia acabado de se despedir de Haymitch na arena. Sentia vontade de simplesmente se deitar na campina e dormir, mas sabia que o cheiro das flores a mataria. Ela observou alguns pássaros voando e não pode deixar de sorrir; eram idênticos aos do Distrito 12. Mas, quando eles se aproximaram, logo começaram a bicá-la. Aquilo a machucava enquanto sentia algo, lentamente, paralisando-a… Veneno. Havia veneno no bico daqueles pássaros. Ela caiu. As flores já não importavam mais… Gritou com a força que sobrara. E logo sentiu uma mão segurando-a, seguida de uma voz um tanto preocupada. “Maysilee, calma, eu cheguei!” Com toda a força que conseguiu reunir, ela abriu os olhos, conseguindo formular um único pensamento. O quanto o cabelo de Haymitch ficava bonito à luz do sol.
731- Após a guerra, Gale e Johanna tornaram-se voluntários em um programa criado por Paylor que ajudava crianças que perderam os pais na guerra. No começo, houve uma certa hesitação- afinal, aqueles dois tinham um passado obscuro. Gale adorava xingar em voz alta- o que os meninos repetiam o tempo todo, fazendo com que a presidente ficasse maluca, dizendo que ele estava, após todos os esforços, criando uma sociedade idiota. Johanna era a heroína de todos eles- usava suas lições de álgebra para fazer aviões de papel e colocava apelido em todos. E, com o passar do tempo, os dois aprenderam a mudar. Evoluir. E, no fim, acabaram se tornando um daqueles casais idiotas apaixonados que eles tanto odiavam.
732- O filho de Katniss e Peeta, que tinha os cabelos loiros do pai, foi chamado de Pedro. A filha, nascida logo depois, foi chamada de Susana e herdou a habilidade da mãe no arco-e-flecha. Certo dia, eles estavam brincando de pique-esconde pelo distrito com os filhos de Effie, que estavam os visitando- e tinham os olhos da Costura- quando acharam um guarda-roupa dentro do antigo Prego. Não sabiam de onde viera. Resolveram entrar. Eles contaram aos pais depois que haviam descoberto um mundo fantástico. Katniss olhou para Peeta, achando que os filhos tinham enlouquecido. O marido apenas sorriu. “Não é mais estranho do que as histórias sobre os monstros e o Acampamento que o filho do Finnick conta, vamos concordar.”
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